Hoje de manhã deixei o carro na oficina.
Só mo devolvem amanhã ao final do dia.
À parte do receio de precisar de ir largada para algum lado e não saber bem como, a verdade é que consegui fazer a minha vida normal sem grandes sobressaltos: fui a pé da oficina para o escritório; de metro para o Chiado em final de dia e de comboio para casa depois de fazer o que me tinha levado ao Bairro.
Com tudo isto, terei gasto talvez mais meia-hora do que gastaria a fazer os mesmos percursos de carro.
Apercebi-me, como me apercebo sempre que acontece algo semelhante, de um sem número de coisas que me vão escapando dia após dia, virtude da opção comodista que assumi há anos, de não abdicar do conforto que é não andar de transportes públicos.
Por ser praticamente Natal, há luzes, enfeites, árvores, anjos e estrelas por todo o lado. Apesar de andar toda a gente num frenesim de loja em loja, a esmagadora maioria parece-me de bem com a vida. De mão dada com maridos e namorados, ao telefone com amigos ou simplesmente a passear. E dou por mim a pensar que vida terão entre portas. Que pensamentos lhes ocuparão as noites. Que alegrias terão para contar ou que mágoas tentarão esconder.
Certo é que não param. Não deixam de viver, de tentar, de procurar melhor ou quem sabe só diferente.
E dou por mim a pensar se vale a pena ponderar tanto. Se é mesmo necessário ter tantos medos e sofrer por coisas tão pequenas. Se vale a pena dar tanto espaço ás rugas e aos cabelos brancos.
Tudo acaba bem.
Se ainda não está bem, é porque ainda não acabou.